Na gaveta

Desde cedo aprendemos as boas maneiras. Não faça isso. Não faça aquilo. Não pegue nada sem pedir. Peça emprestado. Bom dia, boa tarde e boa noite! Por favor. Com licença. Desculpa. Obrigado ou obrigada! Ligou, desligue. Acendeu, apague. Abriu a gaveta? Feche.

É assim. A vida é mesmo um aprendizado. Com os anos é possível distinguir o bem do mal, os prazeres, os medos, os sonhos, as ilusões, as angústias. Claro, que com um pouco de menos de experiência que os mais velhos, mas nem por isso com menos intensidade.

Com o tempo aprendemos a respeitar e a exigir respeito. A amar as pessoas mais próximas. A conviver com as diferenças. A enfrentar os obstáculos e superá-los. Ajudar, quando possível, e pedir ajudar, se necessário.

Mas uma coisa me incomoda. E muito. Se desde cedo já aprendemos tudo isso, como ainda é possível encontrarmos pessoas que de alguma forma perturbem a vida dos outros? Com ações questionáveis. Capazes de fazer o mal para um dócil e inofensivo animal, uma pequena criança que ainda não tem asas, uma ex-namorada amedrontada.

Lendo os jornais, no som do rádio ou nas imagens da televisão é possível ler, escutar ou ver de tudo. Casos assustadores. Inexplicáveis e muitas vezes difíceis de imaginar. Quem sabe ainda de esclarecer. Pois, por mais que haja alguma explicação ainda questiono o motivo para tanta crueldade. E continuo acreditando que não exista. O que há de errado? Onde está o erro? Será que só escutamos, desde cedo, as boas maneiras e quanto à prática deixamos dentro da gaveta?

E isso que eu preciso!

Acordar cedo, tomar café, arrumar, ir para o trabalho e lá vem a correria. Todo dia a mesma coisa. Tudo com horário marcado. Tarefas, tarefas e mais tarefas. E hoje não foi diferente. Pendências para acabar, trabalhos para iniciar e cada vez mais serviço. A parte da manhã toda tumultuada. A tarde também nada de sossego. E quando achava que estava chegando ao fim, aparece um amigo, desses que a gente não pode negar nada, e me pede para escrever um texto para uma coluna do jornal. Mais que depressa, com toda a afobação, aceitei o pedido e só depois notei que ainda não tinha terminado tudo que havia sido proposto. Opa! O texto agora é mais uma pendência na minha lista de infinitas tarefas.

Calma! Respiro fundo e como sempre começo a digitar as primeiras palavras. Mas espera. Qual é mesmo o assunto que vou abordar? Meu Deus! Não defini nada com meu amigo e agora? Pelo jeito mais um serviço para começar.

Vamos lá. Pego os jornais do dia, busco informações na internet, escuto as últimas notícias no rádio e nada interessante para relatar no meu texto. Deve ser a época. Férias, não minhas, mas da maioria das pessoas. E nesse período não acontece nada de muito diferente dos outros anos. Nos jornais os roteiros turísticos, o sol, as chuvas, as situações nas estradas, o carnaval ocupam a primeira página. A política e o futebol estão de férias. E pelo jeito a inspiração também. Hoje não é meu dia.

Penso em mil coisas e nada de atraente vem à minha cabeça. Qual o tema vou abordar no meu texto? Mais um pouquinho e uma boa idéia aparece. Ah! Mas sobre este assunto eu já escrevi. De repente surge outro tema. Mas este também eu já abordei, embora há alguns anos. Sinceramente. Não sei sobre o que vou escrever. Digito algumas palavras, apago outras e não sai nada. Isso não é comum.

Depois de algum tempo... Não acredito! Consegui. Porque não escrever sobre a correria do meu dia, as muitas tarefas e sobre o texto ainda sem tema definido. Agora, sim! Boa idéia. Quer saber? Preciso é de férias.